20 maio 2008

that's how strong my love is

Berlioz, compositor francês do século 19, em suas memórias:

"Dois anos atrás, numa época em que o estado de saúde de minha esposa fazia-me incorrer em muitas despesas, mas ainda havia alguma esperança de melhora, sonhei, uma noite, que estava compondo uma sinfonia, e no sonho eu a ouvi. Ao acordar na manhã seguinte, pude lembrar todo o primeiro movimento, que era um allegro em lá menor em compasso dois por quatro [ ... ] Ia sentar-me à mesa para escrevê-lo quando pensei: "Se eu for, serei levado a compor todo o resto. Minhas idéias sempre tendem a expandir-se hoje em dia, e essa sinfonia pode muito bem ser numa escala enorme. Passarei talvez três ou quatro meses nesse trabalho (levei sete para escrever Romeu e Julieta), e durante esse tempo não farei nenhum artigo, ou no máximo uns poucos, e minha renda consequentemente diminuirá. Quando a sinfonia estiver escrita, estarei fraco o suficiente para ser persuadido pelo meu copista a mandá-la copiar, e com isso imediatamente entrarei numa dívida de 1000 ou 1200 francos. Assim que tiver as partituras, serei atormentado pela tentação de ouvir a obra tocada. Darei um concerto, cuja receita mal cobrirá metade dos custos - isso é inevitável hoje em dia. Perderei o que não tenho e ficarei sem dinheiro para cuidar da pobre doente, não poderei mais pagar minhas despesas pessoais nem a estada do meu filho no navio no qual ele em breve embarcará". Estremeci com tais idéias, larguei a pena e pensei: "E daí? Amanhã já terei esquecido!". Naquela noite a sinfonia tornou a aparecer-me e ressoou obstinadamente em minha cabeça. Ouvi o allegro em lá menor distintamente. E mais: pareci vê-lo escrito. Acordei num estado de excitação febril. Cantei o tema para mim mesmo; sua forma e caráter agradaram-me imensamente. Eu estava a ponto de me levantar. Mas os pensamentos que tivera antes voltaram e me seguraram. Quedei-me ali, empedernindo-me contra a tentação, agarrado à esperança de esquecer. Por fim, adormeci; e quando tornei a acordar, a lembrança da música desaparecera para sempre."

Uma não-canção de amor - é o que isso é.

15 Comments:

Anonymous gabi said...

ele podia ter escrito de noite.
ou no lugar das memorias.
- falou a menina q nao escreveu nem gravou nada decente nos ultimos meses.

21/05/2008 01:49  
Anonymous Cuca said...

Não gravou porque ainda não recebemos as "fitas". Ehehe
Bela passagem. Por isso eu gosto de fazer as coisas simples e rápidas. Ehehe

21/05/2008 08:53  
Blogger Marcio Holanda said...

Outros tempos...Hoje o cara gravava e depois via no que dava.

Se não me engano, tem algo desse belo trecho no ótimo Alucinações Musicais, livro do Oliver Sacks.

21/05/2008 09:45  
Blogger Sabugosa said...

gostei... abração!

21/05/2008 14:14  
Anonymous doolittle said...

John meu caro! É fato que vocês estarão em Londrina em junho? Finalmente poderei matar saudades de um show de vocês?

21/05/2008 16:06  
Anonymous Kaverna said...

Uma pessoa como Berlioz não podia ser tão prática e artística ao mesmo tempo, pois na prática era obrigado a deixar um amor em benefício de outro. Até me senti mulher com este meu comentário... já passou!

21/05/2008 16:53  
Blogger Fábio Zawatsky said...

bela passagem. qual a fonte???

21/05/2008 21:31  
Blogger John said...

Fonte: o Márcio acertou na mosca: Alucinações Musicais, do Oliver Sacks. Não citei porque a fonte primeira, é claro, são as própria memórias do Berlioz.

22/05/2008 15:31  
Blogger flora said...

oi john, tudo bom?
uma pequena intromissão, rapidinho..
então, esses dias assisti no cinema um curta muito bacana, saliva, e quando as letrinhas subiram, vi que a música final era um som, mt bom por sinal, seu e da takai (cocteau, certo?)
enfim, tô catando que nem doida aqui, onde eu escuto?
:)

23/05/2008 02:11  
Blogger Rubs Troll said...

Berlioz,Berlioz

Esse mano sabia das coisas...
Quando penso em fazer um disco(que estou fazendo)tenho esse mesmo tipo de preocupacao que ele.

E se o povo gostar?Sera que vou ter que sair do meu conforto e ir la tocar pra eles,afinal o 'Milton' ja dizia que todo artista tem de ir aonde o povo estah...

fazer ou nao eis a questan.

23/05/2008 16:36  
Blogger Ricardo said...

John, tenho escutado por esses dias uma banda espanhola chamada Presuntos Implicados... e nao sei porque, nao paro de pensar em algumas letras dessa banda na voz da Fernanda.. ia ficar show... enfim... abraço... (o som de vocês a cada disco está melhor, parabens !)

26/05/2008 03:02  
Blogger Marcio Holanda said...

Olá. Ontem eu estava no show da Fernanda aqui na Concha Acústica da UFC. Realmente muito bonito.

Você estava usando uma Variax 700? De longe parecia, e a variedade dos timbres reforça.

No mais, parabéns pelo belo show.

27/05/2008 09:39  
Blogger giancarlo rufatto said...

parece que foi escrito ontem, desconsiderando o fato de que hoje existe estudio caseiro e phones poderosos para não incomodar os doentes.

27/05/2008 18:28  
Blogger Fritiane Totallytchoisted said...

isso aconteceu mesmo?
pareceu uma passagem de algum livro maluco qualquer, do tipo Dostoievisk(?)
mas massa!
componhe entao pô!

27/06/2008 14:29  
Anonymous Mina said...

Que pena! Com certeza o allegro em lá menor era fenomenal!
É por isso que o prefeito da minha cidade diz: não perca a oportunidade, cavalo arreado não passa na sua porta duas vezes. Em geral o ser humano pensa muito e age pouco, levado pelo pessimismo.

27/06/2008 23:55  

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